Arte e liberdade

Em janeiro desse ano me comprometi com o desafio de dar um curso de Pintura de Faixas e Cartazes, para menores infratores no educandário (Cense) de Piraquara. Não, não é um trabalho voluntário, como estava com algum tempo livre e querendo aumentar meus rendimentos, pesquisei algumas ofertas de trabalho de algumas empresas e dentre elas a que mais me agradou foi uma ONG chamada Associação Horizontes, cuja missão é promover a sustentabilidade, a inclusão social e a geração de trabalho e renda por meio da educação.

O anúncio dizia que estavam contratando instrutores para o referido curso e ponto. Enviei meu currículo e no mesmo dia eles entraram em contato, dizendo que o curso seria ministrado no Cense para jovens que cumpriam medida em regime fechado, ou seja, presos. Na hora fiquei bem interessado, pois se tratava de algo que definitivamente eu nunca havia feito na vida, mas estava apto a fazer por conta de mais de 3 décadas de carreira na área da direção de arte e comunicação, sem falar numa licenciatura em artes plásticas. Como sempre atuei como publicitário e nunca como professor, achei a oferta perfeita para verificar se a escolha do curso que fiz no passado finalmente se mostraria útil.

Fiquei bastante entusiasmado com a perspectiva de usar meu conhecimento para algo mais nobre do que criar anúncios e roteiros para publicidade. Já na entrevista, percebi que o trabalho não seria muito fácil e que envolvia certo risco a minha integridade física, já que as aulas seriam ministradas em salas de aula fechadas como celas, onde em cada encontro (aula) eu ficaria trancado com os alunos por duas horas e meia, com materiais como lápis, canetas, réguas, apontadores entre outros que facilmente se tornam armas letais. Apesar do risco, ou por causa dele, aceitei na hora a proposta e fiquei bastante ansioso pelo começo das atividades. Ansioso pelo efeito que o encontro com esses jovens que cometeram crimes teria sobre mim e o efeito que porventura eu causaria neles. Ansioso, pois sentia o mesmo prazer de sentir medo como da primeira vez que saltei de Bungee jumping ou que pilotei um kart, um medo misturado com adrenalina, a sensação de enganar a morte que sinto quando faço algo perigoso.

Esse medo porém durou os 10 primeiros minutos da primeira aula que ministrei no Cense Piraquara. Estava na sala com a coordenadora local da Horizontes, quando um grupo de três educadores do Cense trouxeram sob escolta dois alunos. Um deles entrou na sala de aula, tocando horror, como se dissesse: preste atenção que eu estou chegando. Careca e todo tatuado, pele muito branca e olhos injetados de ódio ou coisa que o valha. Confesso que tremi e pensei: o que estou fazendo aqui? Minutos depois, nos apresentamos todos e eu comecei a falar sobre o curso e sem demora já propus uma atividade, que consistia em demonstrar o processo criativo que uso no meu trabalho, para que eles pudessem através desse processo, criar um tema para o projeto do curso, que defini como sendo um cartaz com título e imagens, pintado a mão. Teriamos então além desse primeiro encontro, mais 19 encontros para que eu ensinasse a esses alunos um pouco do que aprendi em 30 anos de profissão. Minha surpresa, foi que no decorrer dessa primeira aula, a expressão dos garotos, foi mudando da apatia para o interesse. O diálogo foi sendo estabelecido e comecei a ver os seres humanos que estavam na minha frente. Apesar de alguns deles, sentirem certo prazer em contar sobre seus crimes, na tentativa de auto firmar sua masculinidade, procurei durante os três meses que convivi com esse cinco jovens de alas diferentes, enxergar o lado positivo de cada um. E pasmem, são jovens com necessidades parecidas com as minhas, com as suas. Sentem alegria, sentem tristeza, sentem amor e principalmente a falta de amor. Durante esses três meses, refleti muito sobre a condição de vida que os conduziu ao crime. Várias vezes tentei imaginar se eu tivesse crescido na mesma condição sócio cultural deles, se eu não escolheria o caminho dos “corre” (roubo), se eu não seria patrão de uma “biqueira” (ponto de venda de drogas). Me senti um pouco culpado, pois dentro desse caldo todo, composto de alcoolismo  e drogadição dos pais, falta de afeto, falta de condições mínimas de higiene, de acesso a educação e a cultura, a falta de acesso aos bens de consumo que a publicidade e a mídia berram aos quatro cantos que você precisa ter para ser feliz, que você precisa ter para ser, é o que mais pesa na escolha do meio mais rápido de faturamento feita por esses jovens, roubar é mais fácil do que pedir, vender droga dá em uma hora o que um trabalhador leva um mês suando para conseguir. Como publicitário me senti culpado, porém a culpa foi o combustível que me manteve firme durante esse ciclo, pois estar ali era uma espécie de expiação. Eu estava fazendo algo bom, por mais que a mensagem que eu estava passando para esses garotos, entrasse por um ouvido e saísse por outro e minha expectativa era de conduzir pelo menos um deles para um caminho do bem, me senti bem comigo mesmo e bastante motivado e isso refletiu em outros aspectos da minha vida. O efeito que o encontro com esse jovens causou em mim, foi extremamente positivo. Fazer o bem, ou pelo menos tentar fazer o bem, faz muito bem a quem faz, sem falar no valor que passei a dar a minha liberdade, passar algumas horas preso durante o dia de segunda a quinta-feira, me fez sentir uma felicidade indescritível por ser livre e poder ir para onde eu quisesse a hora que eu quisesse cada vez que eu entrava no meu carro para voltar para Curitiba e para meus outros compromissos, coisas que temos e não damos valor. O efeito que causei neles, só o tempo dirá. É uma escolha difícil para eles. Viver na miséria com pouquíssimas chances de sustento ou a vida do crime, com seu ciclo de vida rápida, adrenalina e um certo glamour e prestígio dentro da comunidade.

Outro aspecto que me intrigou bastante, foi a escolha dos temas, dos textos e das imagens para o projeto de cada um desses garotos. O resultado, que você confere abaixo nem precisa de comentários.

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dias_felizes_&_dias_tristes meu_esconderijo_e_minha_familia minha_mãe_é_uma_novela o_resumo_de_tudo

||->> Pérolas do Capitão Flores <<-||

Aos amigos e amigas  que tem filha linda (as nossas são sempre lindas): com o recente surgimento de um pequeno louco querendo namorar a minha filha (que eu adoçava a mamadeira dela com Leite Moça), tirei da gaveta o seguinte formulário que agora disponibilizo para todos que tenham ou possam vir a ter uma filha. Já se passaram mais de dois meses e o pretendente ainda não voltou para me entregar o formulário preenchido.

AUTORIZAÇÃO DE NAMORO – FORMULÁRIO

 

FORMULÁRIO PARA AUTORIZAÇÃO DE NAMORO COM MINHA FILHA
Nota Importante: Este formulário deverá vir devidamente acompanhado de:
* Declaração completa de bens
* Histórico Escolar
* Histórico Profissional
* Árvore Genealógica completa
* Ficha Criminal
* Exame de Saúde completo e atualizado.
 Dados Pessoais

Nome__________________________________
Data de Nascimento __/__/____
Altura_____
Peso_____
Q.I.____
Média Escolar____

Prontuário:
RG____________________
CPF____________________
Escoteiro? Medalhas? Atividades Esportivas? ( ) Sim ( )Não Quais_____________________________________________
Endereço Residencial (Completo) __________________________________________________
Você tem 1 (UM) Pai e 1 (UMA) Mãe?___________________
Se Não, Explique:_______________________________
Há quantos anos seus pais são casados?________________
Se menos que sua idade, explique:_______________________

Acessórios esquisitos e comportamento

Usa piercings na orelha, nariz ou boca?.. ( )sim ( )não
No umbigo e outras partes do corpo?…( )sim ( )não

É Corinthiano?   (  ) sim (  ) não

 Tem tatuagem?( )sim ( )não
Onde?___________________ 

(SE VOCÊ RESPONDEU POSITIVAMENTE A QUALQUER ITEM ACIMA, ESQUEÇA! PODE PARAR DE PREENCHER ESTE FORMULÁRIO)
                                             
 Interpretação de texto
Usando 50 palavras ou menos, descreva o que significa chegar TARDE para você:
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 __________________________________________________
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 Usando 50 palavras ou menos, descreva o que significa NÃO BULINAR MINHA FILHA:
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 __________________________________________________
 
Usando 50 palavras ou menos, descreva o que significa ABSTINÊNCIA, na sua opinião:
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 __________________________________________________
__________________________________________________
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Outros
Preencha os espaços abaixo. Todas as respostas serão  confidenciais:
 Igreja que você freqüenta:__________________________
 Com que freqüência?_____________________________
 
 Na remota hipótese de eu ser atingido por uma bala, eu detestaria ser atingido no: _____________________________
 Caso eu leve uma surra, não quero que me quebrem o seguinte osso: ____________________________
Lugar de mulher é:______________________________
Escreva algo que você não espera ter que responder neste formulário: ___________________________________________________
Qual a primeira coisa que você nota em uma mulher? _________________________________________
 (Nota: Se a resposta começar pelas letras P, B ou C, favor abandonar imediatamente este formulário e sair correndo, de cabeça baixa )

O que você quer ser ‘SE’ crescer?
_____________________________
EU, ABAIXO ASSINADO,
 Assinatura____________________________________________ (o estúpido )
As letras pequenas abaixo são mera formalidade, nem precisa ler!!!

A) Eu, o namorado, doravante denominado ‘estúpido ‘
B) Declaro ainda que este documento tem poder de ‘procuração’ seja para que assunto for.
C) Desisto de qualquer direito, mesmo sobre minha integridade física, ossos, órgãos, dentes, durante todo o tempo de vigência do namoro ‘mais nove meses’ pertencendo ao Pai da Namorada os poderes de decisão, inclusive de vida ou de morte.
D) Ao pai da namorada não questionarei a autoridade ou ordens, deverei agir com obediência cega a toda e qualquer ordem ou vontade que me for imposta, a mínima que seja.
E) Admito toda e qualquer culpa que me for imputada sem questionar. Sem direito a teste de DNA.
F) Reconheço a legitimidade de ‘Pagamento de pensão’ durante o período que a ‘namorada’ se mantiver solteira a titulo de indenização moral caso este não resulte em um honroso matrimônio.

Obrigado pelo seu interesse. Favor aguardar de 2 a 3meses para seleção.
Se aprovado, você receberá uma notificação por escrito. Não chame, ligue ou escreva. Aguarde minha chamada.
Se você não for aprovado e dependendo das circunstâncias, você será notificado, pessoalmente, pela Polícia Militar!!!!!!!

 
Atenciosamente,
Cap. Flores – O Poderoso PAI da princesa, ou seja, O REI.
2 vezes campeão Gaúcho de tiro – modalidade saque-rápido
Campeão brasileiro de tiro ao alvo – modalidade Moore System
3 vezes campeão brasileiro de tiro com olhos vendados
Campeão gaúcho de vale-tudo 2002
Campeão brasileiro de vale-tudo 2003
Instrutor de combate com facas.
Adestrador de Cães de ataque.
Livros Publicados: ‘Táticas de Combate – Silenciamento de Sentinelas’  e ‘Matando com as mãos’